Há jogadores que marcam uma época e há Lionel Messi, que parece ter dobrado o próprio tempo.
Quando finalmente ergueu a Taça do Mundo no Catar, em 2022, derrotando a França numa das melhores finais de sempre, fechou o único capítulo que faltava a uma carreira já sem rival na história.
Recordista absoluto de oito Bolas de Ouro, chega ao Mundial de 2026 — quase de certeza o último — com pouco a provar e tudo a celebrar, na pele de capitão de uma seleção campeã.
Rosário, a hormona de crescimento e um contrato num guardanapo
Lionel Andrés Messi nasceu a 24 de junho de 1987, em Rosário, na Argentina, no seio de uma família de classe trabalhadora.
Aos 11 anos foi-lhe diagnosticada uma deficiência na hormona de crescimento, com um tratamento caríssimo que a família não conseguia suportar e que nenhum clube argentino quis financiar.
Foi o FC Barcelona quem aceitou o risco: o dirigente Carles Rexach, sem papel à mão, terá rabiscado o compromisso de o contratar num guardanapo, num episódio que entrou para a mitologia do clube.
A mudança para Barcelona, ainda criança, separou-o temporariamente da família e fê-lo entrar na lendária academia de La Masia. Tímido, introvertido e de poucas palavras, Messi compensava em campo tudo aquilo que não dizia fora dele.
Os companheiros perceberam depressa que estavam diante de algo irrepetível.

La Masia e a explosão de um fenómeno
Estreou-se pela equipa principal do Barcelona em 2004, ainda adolescente, e cedo recebeu de Ronaldinho o simbólico testemunho de craque da casa.
Os primeiros golos — incluindo um diante do Albacete, com assistência do próprio brasileiro — anunciaram um talento que iria redefinir o que era possível com uma bola nos pés.
Barcelona: uma vida inteira a partir recordes
Ao longo de 17 temporadas, Messi tornou-se o maior marcador da história do clube, com 672 golos, conquistando quatro Ligas dos Campeões (2006, 2009, 2011 e 2015) e dez títulos de La Liga.
Sob a orientação de Pep Guardiola, integrou aquela que muitos consideram a melhor equipa de clubes de sempre, a do tiki-taka que encantou o mundo entre 2008 e 2012.
Pelo meio bateu marcas que pareciam intocáveis, como os 91 golos num único ano civil (2012), um recorde que talvez nunca seja igualado.
A rivalidade desportiva com Cristiano Ronaldo definiu mais de uma década de futebol e empurrou ambos para uma exigência sem precedentes, dividindo adeptos em todo o planeta.

Estilo de jogo: o canhoto que via o que ninguém via
O segredo de Messi nunca foi a força nem a velocidade pura, mas um centro de gravidade baixo, uma mudança de direção impossível de prever e um pé esquerdo que parecia ter a bola colada.
Com o passar dos anos transformou-se também num criador de jogo completo, recuando para organizar, distribuir e bater faltas com uma precisão cirúrgica. Poucos souberam envelhecer no futebol convertendo explosão em inteligência como ele.
A saída em lágrimas, Paris e o recomeço em Miami
Em 2021, a grave crise financeira do FC Barcelona impediu a renovação e forçou uma saída impensável, anunciada numa conferência de imprensa em lágrimas.
Seguiram-se dois anos no Paris Saint-Germain, com dois títulos franceses, mas sem o brilho habitual e com uma relação fria com parte dos adeptos.
Em 2023 escolheu um rumo diferente: o Inter Miami, na liga norte-americana, onde venceu logo a Leagues Cup e provocou uma autêntica explosão comercial em torno do futebol nos Estados Unidos, com acordos que mudaram a forma como a modalidade é vista e transmitida no país.
Seleção: do desgosto à redenção total
Durante anos, a relação de Messi com a seleção argentina foi feita de finais perdidas: o Mundial de 2014, decidido pela Alemanha no prolongamento, e três finais consecutivas — duas Copa América e uma Copa das Confederações.
Em 2016 chegou a anunciar a retirada da seleção, esgotado pela pressão de um país inteiro que lhe cobrava o que Maradona dera. Voltou pouco depois — e o destino acabaria por recompensá-lo.

A redenção começou na Copa América de 2021, o primeiro grande título com a camisola argentina, conquistado precisamente no Maracanã, frente ao Brasil.
O ponto mais alto chegou no Mundial de 2022: Messi foi eleito o melhor jogador do torneio, marcou na final frente à França e ergueu finalmente a taça que lhe faltava.
Juntou ainda a Finalíssima de 2022 e a Copa América de 2024, tornando-se também o maior marcador de sempre da seleção.
Quem aprecia as grandes finais da história dos Mundiais dificilmente esquecerá a noite de Lusail.
Grandes vitórias e maiores desgostos
A carreira de Messi é a prova de que a glória sabe melhor depois da dor. As três finais perdidas pela seleção entre 2014 e 2016, somadas às críticas de quem dizia que ele “não era para a Argentina o que era para o Barcelona”, tornaram a conquista de 2022 quase poética.
Ao nível de clubes, a humilhação do 8-2 frente ao Bayern em 2020 e a saída forçada de Barcelona ficaram como cicatrizes — mas nenhuma apagou o brilho de uma trajetória irrepetível.
Palmarés e recordes principais
Recordista absoluto de Bolas de Ouro, com oito. Campeão do mundo em 2022.
Vencedor de quatro Ligas dos Campeões e de dez campeonatos espanhóis. Maior marcador da história do FC Barcelona e da seleção argentina.
Duas Copa América e uma Finalíssima. A lista é tão longa que se torna quase aborrecida de tão completa.
O homem por trás do génio
Fora das quatro linhas, Messi é o oposto da estrela mediática: reservado, caseiro e fiel às raízes. Está com Antonela Roccuzzo, namorada desde a infância em Rosário, com quem tem três filhos.
Criou a Fundação Leo Messi, dedicada ao acesso de crianças à saúde e à educação, e mantém uma relação quase obsessiva com a bola — conta-se que dormia abraçado a ela em criança.
Aos quase 39 anos, num sexto e provável último Mundial, Lionel Messi continua a lembrar-nos que o talento, quando guiado pela humildade e pela teimosia, não tem prazo de validade. A Argentina inteira quer vê-lo despedir-se da forma como ele sempre jogou: ganhando.
Curiosidades pouco conhecidas sobre Messi
O alcunha “La Pulga” (a pulga) acompanha-o desde criança, fruto da baixa estatura que a deficiência hormonal lhe causou e que o tornaria, ironicamente, num atleta de centro de gravidade imbatível.
Em pequeno idolatrava o compatriota Pablo Aimar, a ponto de chorar quando o via jogar, e mais tarde aprenderia muito ao lado de Ronaldinho em Barcelona.
No início da carreira, Messi era assolado por episódios recorrentes de vómitos durante os jogos, atribuídos a nervosismo e a uma má alimentação.
O problema só foi controlado quando passou a seguir um plano nutricional rigoroso, orientado por um especialista italiano — uma mudança discreta que, segundo muitos, prolongou a sua longevidade no mais alto nível.
Embaixador da UNICEF desde 2010, leva nas costas uma tatuagem com o rosto da mãe e, numa das pernas, a mão do filho Thiago.
Apesar da timidez quase proverbial fora de campo, tornou-se uma das figuras mais influentes do desporto mundial, com um impacto comercial que extravasa largamente o futebol.
Há ainda um pormenor que resume bem a sua dimensão histórica: é o único futebolista a vencer oito Bolas de Ouro, deixando para trás todos os génios que o antecederam.
Para um miúdo de Rosário que quase não pôde jogar por causa da estatura, poucos guiões seriam mais improváveis — ou mais merecidos.
Os números de uma carreira irrepetível
Quando se tenta resumir Messi a estatísticas, percebe-se rapidamente que nenhuma página chega.
Somando clubes e seleção, ultrapassou largamente os 850 golos oficiais na carreira, a que se juntam centenas de assistências que fazem dele, simultaneamente, um dos maiores marcadores e um dos maiores criadores de jogo da história.
Durante anos, foi também o jogador com mais participações diretas em golos por época em todo o futebol europeu, um domínio estatístico que se prolongou por mais de uma década sem paralelo conhecido.
Na Liga dos Campeões, esteve sempre na conversa do maior goleador de sempre, protagonizando noites memoráveis — como os quatro golos ao Arsenal ou a exibição diante do Bayern em 2015 — que ajudaram a moldar a perceção do que um único jogador pode fazer numa competição de elite.
Pela seleção argentina, é o recordista absoluto de internacionalizações e de golos, números que durante muito tempo pareceram impossíveis para um país habituado a comparar todos os seus craques com Diego Maradona.
Há ainda os recordes que escapam às tabelas: o número de vezes que foi eleito o melhor do mundo, a quantidade de adversários que admitiram publicamente preferir tê-lo como colega a enfrentá-lo, e o efeito quase imediato que a sua simples presença provoca nas audiências televisivas e nas bilheteiras, do Camp Nou a Miami.
Poucos atletas, em qualquer modalidade, moveram tantos ponteiros ao mesmo tempo.
Acima de tudo, Messi conseguiu aquilo que é talvez o mais difícil: manter o nível mais alto durante quase vinte anos, atravessando gerações de adversários e mudanças táticas profundas sem nunca deixar de ser decisivo.
É essa constância, mais do que qualquer pico isolado, que sustenta o argumento de quem o considera o maior de todos os tempos.





